QUE ESQUERDA?

António Rebelo de Sousa

Economista

 

Para alguns, ser de esquerda é defender a reposição de salários e de pensões de reforma, é pugnar pelo que convencionaram designar de «direitos adquiridos» dos trabalhadores, é ser a favor da adoção de crianças pelos casais do mesmo sexo e é, sobretudo, estar-se contra a mobilidade social e as reformas estruturais, uma vez que as mesmas só abririam as portas às privatizações ‘selvagens’ e ao agravamento das condições de «exploração do homem pelo homem».

Diga-se, em abono da verdade, que reconduzir um Programa de Esquerda a este reduzido conjunto de valores sabe, naturalmente, a muito pouco, correspondendo a uma visão algo redutora do que deve entender-se por progresso e modernização da sociedade dos tempos de hoje.

E, sobretudo, o que se apresenta mais grave é, em nome de um conjunto de valores desta natureza, estar-se na disposição de estabelecer plataformas de entendimento para a governação do país com quem considera Maduro e o «Grande Líder Norte-Coreano» vítimas do imperialismo americano.

A esquerda tem de se modernizar, tem de apostar, isso sim, na subordinação do poder económico ao poder político democraticamente constituído, numa justa distribuição do rendimento, na implementação de uma nova política de ordenamento do território, num planeamento indicativo que permita selecionar setores estratégicos, na defesa de direitos sociais associados a uma efetiva responsabilização do fator produtivo do trabalho, numa Europa mais forte – com reforço da vertente federalista – e no aprofundamento da democracia e, por isso mesmo, dos mecanismos de participação dos cidadãos.
Sem conciliações com quem não renuncia às tentações totalitárias.

Uma esquerda europeia que queira mais Europa para que exista mutualização da dívida, reforço dos fundos estruturais e aplicação de políticas de inspiração neo-keynesiana, assentes em novos projetos de investimento público comunitários.

Mas, que, também, concorde com a existência de rigor orçamental, o que poderá passar pela criação de um Ministério das Finanças Europeu.

Ser de esquerda não é defender o aumento da despesa pública sem limites. É, isso sim, pugnar pela implementação de políticas públicas de pendor progressista, a par de uma maior responsabilização dos governos.

Será esta uma posição politicamente incorreta para quem se situa na área da social-democracia e do socialismo democrático?

Só para aqueles que, ainda, não perceberam que a única forma de socialismo democrático possível é a social-democracia.

Nem mais, nem menos...

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