Pablo Guayasamín

«O meu pai escolhia cada música para cada quadro que pintava»

\\ Texto Maria Cruz (com a colaboração de Tiago Feijóo)
\\ Fotografia Direitos Reservados

Pablo Guayasamín, filho do artista equatoriano Oswaldo Guayasamín, está à frente da fundação Guayasamín – a fundação contém mais de 200 obras a óleo e 1300 desenhos. Pablo é quem cuida do legado deixado pelo seu pai. Em entrevista à Villas&Golfe, o filho mais velho do pintor fala da sua relação com o pai; da ligação dele com o Chile; da cegueira que tanto o transtornou e do seu falecimento, nos Estados Unidos. Foi um ataque cardíaco que pôs fim à vida do pintor equatoriano, que havia nascido em 1919, no Quito, no Equador. Oswaldo, ao longo da sua vida, sempre lutou pela Defesa dos Direitos Humanos. Nas obras, criadas a óleo, aguarela e esmalte, sempre ao som de uma boa sinfonia, procurou retratar muitas das suas vivências. Parte do espólio artístico do pintor encontra-se espalhado pelo mundo, nos mais diversos museus. Aos olhos do filho Pablo, a imagem que mais marcou o convívio entre Oswaldo e os seus filhos foi a da infância porque, juntos, puderam jogar à bola e ao «trompo» (pião) – brincadeiras estas que foram rejeitadas ao pintor quando era criança, pelos colegas. Também o papel solidário do artista foi reconhecido pelo mundo.

«A coleção mais importante dele é a serie das mãos»

É filho do artista equatoriano, Oswaldo Guayasamín. Como olha para a carreira do seu pai?

Creio que é uma carreira muito positiva. Uma carreira reconhecida, desde cedo. Os próprios professores na escola de Belas Artes davam-lhe privilégios. Ele pôde pintar junto deles, com modelos desnudos, por exemplo. Aos 22 anos fez a sua exposição individual. E Nelson Rockefeller (ex-Vice-Presidente dos Estados Unidos) gostou de várias obras da sua coleção e convidou-o a visitar os Estados Unidos. E, à época de 1940 (ele nasceu em 1919), tinha ele 21 anos e já estava a fazer retratos de duas figuras Prémios Nobel da Literatura. Desde muito jovem, ele já tinha um caminho e um horizonte aberto. Logo depois, converte-se um pouco na voz dos despojados da América Latina e ganha as três grandes Bienais de pintura do mundo: a Bienal de São Paulo, a Bienal do México e a Bienal de Espanha.

Qual é o momento mais bonito que recorda do seu pai?

É, possivelmente, quando nós erámos pequeninos. Ele queria jogar connosco, algo que ele não pôde fazer na sua infância. Ele foi, por causa do seu apelido, rejeitado pelos seus companheiros. Os que tinham apelidos mestiços eram excluídos. Os meninos queriam jogar à bola, queriam jogar ao «trompo» (pião), mas deixavam-no de lado, ao meu pai, pelas suas raízes indianas. Ele, querendo recordar essa meninez, que nunca a teve, pôde fazê-lo connosco, com os filhos. Creio que são os momentos mais agradáveis que passámos juntos.

Como era a rotina diária do seu pai?

Essencialmente fazia a sua criação plástica. Nas horas em que estava no seu estúdio, com o quadro que ia pintar, umas vezes escutava música clássica, outras vezes música latina americana e, outras vezes, música equatoriana. O meu pai escolhia cada música para cada quadro que pintava. Ele gostava muito da comida própria da terra, comida equatoriana – choclo y maiz (milho) – e, por outro lado, acreditava que através da comida se podia conhecer a idiossincrasia e a cultura dos povos. Por isso, respeitava profundamente todo o tipo de alimentação que se produzia em cada povo. Para além de pintar, também gostava muito de cantar, tocava guitarra maravilhosamente. A sua mãe ensinou-o. Cantava com um sentimento e com uma grande profundidade. Era um grande conversador. Grande anfitrião. Aos seus amigos entregava-lhes tudo o que estava ao seu alcance.

Que quadro, ou quadros, lhe ficam na memória para sempre?

Os quadros que me ficam na memória são o Enterro, com o qual ganhou a Bienal de Barcelona. Retrata como a gente pobre do nosso país enterra os seus filhos. Outro quadro que me parece ter grande importância é a Lagrima de Sangue, uma homenagem a Salvador Allende, Víctor Jara e Pablo Neruda. E outro quadro de grande relevância é a serie das mulheres chorando, onde há marcas de dor, das mães espanholas, como consequência da guerra civil. E, possivelmente, a coleção mais importante dele é a serie das mãos.

 

«O meu pai foi um homem de um pensamento progressista, um lutador pela paz e pelos direitos humanos»

Oswaldo Guayasamín viajou pelos cinco continentes. Quantas obras produziu e onde se encontra a maioria delas?

Guayasamín fez mais de 200 exposições individuais no mundo. Pintou mais de 5000 quadros, em 80 anos de vida, e as suas obras estão um pouco por todo o mundo. No Brasil temos uma grande obra, em São Paulo. Muitas encontram-se em muitos museus no mundo, e em coleções privadas. Tem obras no Aeroporto de Barajas, por exemplo; tem um grande mural na Unesco, em Paris; tem outro grande mural em São Paulo, em Caracas, sobre o libertador Simón Bolívar; e aqui, no Equador, na Casa da Cultura, no Congresso Nacional.

Nas suas obras, Guayasamín sempre procurou expressar o horror e os dramas do Homem. Porque acha que o seu pai o fazia?

Porque sentia no seu próprio corpo a dor da discriminação. O meu pai foi um homem de um pensamento progressista, um lutador pela paz e pelos direitos humanos.

O seu pai tinha um grande apreço pelo Chile, porquê?

Porque teve uma íntima amizade com Salvador Allende e Pablo Neruda. E porque se opôs radicalmente a tudo o que era ditadura de Pinochet. Assim, foi-se juntando mais ao povo chileno.

Por ironia do destino, seu pai morreu nos Estados Unidos. Quer falar-nos desse momento?

Creio que o último lugar onde o Guayasamín não quereria morrer era nos Estados Unidos. Esse país fechou as portas à sua pintura, à sua mensagem, por ser um homem de esquerda, por ter visitado a União Soviética, por ser amigo de Fidel Castro, por ter visitado a China e ter conhecido Mao Tsé-Tung. Foi aos Estados Unidos por motivos de saúde, depois de ter corrido o mundo em busca de uma solução para o seu problema de cegueira. Pensou que, talvez, nos Estados Unidos, pudesse encontrar uma solução. É muito doloroso para um pintor, que necessita da sua vista, perdê-la. Lamentavelmente quando lhe disseram que já não havia solução e que apenas estava em estudo um medicamento para essa doença, ele não suportou essa informação e morreu de ataque cardíaco.

Se Guayasamín estivesse vivo o que diria ele sobre o mundo atual? A arte, o terrorismo, a humanidade...

Diria que se adiantou com a sua pintura. Lamentavelmente, grande parte dos recursos que o mundo gera está destinada aos estudos de bombas, cuja única finalidade é destruir o ser humano e destruir o mundo que nos rodeia. Guayasamín pintou toda essa barbaridade, quando pintou Hiroshima e Nagasaki, as consequências disso, os campos de concentração, ou seja, a sua pintura é um grito desesperado pela paz. E, se estivesse vivo e estivesse a ver a atualidade, veria como morrem pessoas a atravessar o mediterrâneo, com mulheres grávidas e crianças, e como não se permite o ingresso noutros países mais desenvolvidos. Há estes seres humano que usam a violência e a guerra. Ele dar-se-ia conta de que a sua pintura continua a retratar o mundo de hoje. O terrorismo é uma ação violenta do Homem. A humanidade está desumanizada.

Como é hoje recordado Oswaldo Guayasamín?

Guayasamín é recordado como o homem do seu tempo. O homem que nasce do nada e projeta o futuro, com a humanidade, com carinho, com humildade, com desejos de ter na Terra um mundo melhor.

O seu pai deixou um legado. O que representa para o Pablo estar à frente da Fundação Guayasamín?

A Fundação foi criada há 40 anos. Estamos a formar os filhos mais novos para que mantenham nas suas mãos a direção deste grande projeto. Creio que é um dever nosso continuar com o seu trabalho, com a sua mensagem, e não deixar que isto morra. A sua obra jamais irá morrer. A sua instituição, os seus pensamentos e a sua maneira de ser são, para nós e para as novas gerações, um exemplo. O que aspiramos é que este nome continue a vibrar no coração da gente pobre, da gente humilde. Ele considerava que a única maneira de sair de um problema económico era através da cultura. E arte é cultura. E a poesia é cultura. E, logicamente, esta mensagem plástica que ele nos dá, em cada um dos seus quadros, é cultura. Estamos a criar o homem que busca a paz através da cultura.

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