Ana Rita Sithole

«Unidos, mulheres e homens, façamos Moçambique avançar!»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Dark Side Photography

Política, empresária, mãe e mulher moçambicana, Ana Rita Sithole é uma das caras mediáticas do Comité Central da Frelimo. Pertenceu à Geração 8 de Março - chamamento dos jovens para servir os interesses da pátria -, em 1977, e abraçou o Partido Frelimo, no ano seguinte. Nascida e criada na província de Inhambane, cidade da Maxixe, acredita que Moçambique tem potencial de ascensão e na lista das suas opiniões encontra-se a importância do papel da mulher na sociedade, lembrando que o próprio desenvolvimento do país passará por elas. Por isso demos ?voz? a Ana Rita. Ouvimo-la. Se alguma coisa pode ser dita, e a empresária confirma, é que, de facto, o acesso da mulher nos processos de tomada de decisão ainda está aquém do desejado. Ana Rita falou-nos, ainda, dos grandes desafios que, atualmente, Moçambique enfrenta e revelou que o sector energético natural é uma das áreas em progresso. Deste modo, a política e empresária pretende contribuir para o crescimento do país, com a Macassar Resources, empresa do sector energético. Ainda nesta entrevista, também opinou sobre a área do ensino no país, cujo sector ainda denota muita escassez, no que diz respeito aos recursos humanos e materiais. Referiu, além disso, que as prioridades do país passam, essencialmente, pela produção nacional. E, tal como Ana Rita nos diz, «Unidos, mulheres e homens, façamos Moçambique avançar!»

A Ana Rita defende muito o papel das mulheres na sociedade. O crescimento do país passará muito pelas mulheres empreendedoras?

 É uma verdade inegável que em qualquer país, em via de desenvolvimento que nem o nosso, o papel da mulher reveste-se de grande importância. É a mulher mãe, educadora, esposa, trabalhadora, empreendedora que garante o bem-estar social da sua família, bem como da comunidade onde se encontra inserida, levando nas costas o pesadelo de garantir a estabilidade emocional, particularmente no seio da família nuclear. Com efeito, numa população, que segundo dados estatísticos, mais recentes, é acima de 50% feminina, conjugado com o facto de a maior parte das adversidades que retraem o desenvolvimento ainda têm a cara feminina. Fica claro que o desenvolvimento do país passa, necessariamente, pelo engajamento pleno da mulher em todas as suas vertentes, nas áreas de formação académica, técnica e profissional.

 

Já se dá ?voz? à mulher moçambicana?

Embora se registem alguns avanços assinaláveis, ainda há muito por fazer, particularmente no que diz respeito ao acesso da mulher nos processos de tomada de decisão, aos diversos níveis. Vezes sem conta, as mulheres são preteridas por motivos que transmitem uma certa descriminação, com relação aos homens.

 

A Ana Rita já sentiu o que é ser excluída de um cargo de liderança por se tratar de uma mulher. O que sente uma mulher numa situação destas e como reagiu neste episódio?

Desde a minha infância fui criada num ambiente em que sete irmãos, entre quatro rapazes e três meninas, fomos todos educados para vencer a vida. Sempre procurei usar qualquer tipo de dificuldade como oportunidade, para consolidar as minhas competências e vencer os obstáculos. Por outro lado, também fui aprendendo que para se ter êxito, em qualquer circunstância, nunca se pode ir isolado, ou seja, o coletivo tem mais capacidades de vencer, desde que se tenha uma adequada liderança.

 

«É a mulher mãe, educadora, esposa, trabalhadora, empreendedora que garante o bem-estar social»

Lançou-se no sector da Energia em Moçambique. É um sector estratégico para o país?

Um dos grandes desafios que hoje Moçambique enfrenta é ter um potencial energético natural que o coloca no grupo das nações com um futuro invejável. Com a sua riqueza, Moçambique hoje pode garantir o desenvolvimento próspero para as futuras gerações, desde que se garanta uma gestão transparente, capaz de, paulatinamente, ir providenciando o usufruto equitativo, por todos os cidadãos. Com a Macassar Resources proponho-me a contribuir para desenvolver o ramo energético, dado tratar-se de uma área que carece de muito investimento para se transformar um sonho em realidade, que venha a beneficiar o verdadeiro dono, o Povo duma forma geral.

 

É nas épocas de crise que se deve investir, gerir negócios?

 Sim, mas não só. O que importa é estarmos devidamente organizados em termos estruturantes, com acesso ao investimento no âmbito das parcerias público privado.

 

Nas situações de crise, o papel da mulher é fundamental porque acentuam as desigualdades e a família é afectada com isto. A posição da família está a ser salvaguardada a nível governamental?

Sempre esteve. Embora de forma modesta não se transmitem muitas atividades levadas a cabo por mulheres anónimas, em todos os cantos deste vasto Moçambique. Neste âmbito, a minha grande vénia vai para a mulher rural, e aquela que se dedica ao sector informal, em particular.

 

É importante comunicar aos jovens empreendedores que as oportunidades de negócios, muitas das vezes, estão lado a lado com as épocas de crise?

Sem dúvida, mas acima de tudo, é preciso garantir a aquisição do conhecimento e o domínio da ciência, para capacitá-los a fazer uso das condições que o Estado providência, com enfoque para o distrito, como o pólo do desenvolvimento nacional.

 

Os jovens moçambicanos estão no rumo certo?

Têm quase tudo para estar, porém, deparam-se ainda com muitas adversidades próprias do desenvolvimento acelerado numa economia global.

 

Ana Rita também é deputada. O que a motivou a fazer parte da Frelimo e como analisa o seu papel desenvolvido pelo mesmo?

Ter tido a honra e o privilégio de pertencer à Geração 8 de Março, senti, na companhia de outros jovens, na altura, que era chegado o momento de entregarmo-nos ao chamamento - à pátria -, por uma questão de exercer, de forma actuante, a cidadania. Aí abracei o Partido Frelimo, em 1978, tendo sucessivamente exercido funções desde o seu núcleo mais básico, a célula, o círculo, os comités de cidade e o mais alto órgão do partido, no intervalo entre os congressos, o Comité Central. Foi nesta vertente que, em 1994, fui eleita para integrar a lista da Frelimo dos deputados concorrentes pelo Círculo Eleitoral de Inhambane. Portanto, sou deputada desde a primeira legislatura multipartidária.

 

Como deputada, e para um futuro próximo, acredita que haverá diálogo político entre Governo e a Renamo?

No que à Frelimo diz respeito, o diálogo tem sido sempre uma forma privilegiada de ser e estar, no seio da minha organização política, as opiniões diversas enriquecem o debate, por isso, para se chegar aos consensos, particularmente no seio dos seus órgãos, passa-se, necessariamente, por momentos de diálogo para o enriquecimento e consolidação das ideias que nos conduzem à tomada de decisões, de aplicação obrigatória, por todos os membros.

«A questão da qualidade de ensino é e continuará a desafiar todo o sistema nacional»

Para além de Política, é proprietária do Colégio Nhamunda, uma escola de referência. Como divide o seu tempo entre a política, ensino e a vida pessoal?

É uma realidade que o Nyamunda hoje ocupa um lugar privilegiado, das melhores escolas privadas do país a nível do ensino básico. A caminhada foi longa pois já conta com 24 anos de atividade, onde ano após ano, a demanda tem sido cada vez maior, o que faz com que sinta a necessidade de avançar para outros níveis, em termos de extensão. A partir do próprio lema Vamos a Machamba, exerço uma gestão familiar assente na distribuição de tarefas adequadas, conducentes a uma responsabilização individual, com base em critérios de gestão e administração científica. O sucesso do Nyamunda resulta do empenho de toda a comunidade escolar, como seja, os pais ou encarregados de educação, alunos e colaboradores.

 

A área do ensino em Moçambique está no caminho certo?

Está. Obviamente a nível do ensino público ainda se coloca o desafio de escassez de recursos humanos e materiais capazes de fazer face à cobertura da rede nacional, particularmente nos primeiros anos da escolaridade obrigatória. A questão da qualidade de ensino é e continuará a desafiar todo o sistema nacional para que, efetivamente, os cidadãos usufruam deste direito constitucional.

Deputada e mulher moçambicana. No seu ponto de vista como se encontra economicamente o país e quais devem ser as prioridades?

O país atravessa uma crise financeira internacional, conjugada com outras adversidades nacionais impostas pelas calamidades naturais. Nesta base, torna-se evidente que nos concentremos na produção nacional para garantir a subsistência alimentar, por um lado, alavancar a autonomia dos produtores nacionais com vista à troca dos excedentes agrícolas e exportação para outros países. No ramo industrial é pertinente fomentar a agricultura mecanizada para transformar os produtos específicos que são resultado das colheitas ao longo de todo o ano nas diversas regiões do país.

 

Como o país atravessa uma fase menos positiva, nomeadamente de crise, que palavras deixaria ao povo moçambicano?

Reiterar a todos os compatriotas que o nosso país não é uma ilha. Vivemos momentos adversos que nos colocam em situações de desespero que poderiam perpetuar o estágio de incumprimento das metas para o desenvolvimento sustentável, porém, temos todas as condições para fazer destes constrangimentos oportunidades para vencermos e sairmos vitoriosos e vencermos a pobreza, nossa agenda nacional. Unidos, mulheres e homens façamos Moçambique avançar!

«Reiterar a todos os compatriotas que o nosso país não é uma ilha»

Passou pelo colonismo, pela independência, pela guerra civil. Considera-se uma mulher de armas?

Tudo isso é relativo, a parte mais activa da minha vida, como acima foi descrito, começa com a independência nacional. Aí, sim, a minha vida foi sempre caracterizada por forma serena, própria de alguém que preza o seu carácter. Quem me dera que eu consiga ser sempre a Ana Rita.

 

Diz-se nos corredores do poder que a Ana Rita será a próxima Secretária Geral da Frelimo. Os moçambicanos podem contar consigo?

Pode imaginar de que isso não faz parte da minha agenda pessoal.

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