Aires Ali

«Um país com fraco nível de formação, pouco ou nada pode fazer»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Dark Side Photography

Foi Niassa que o viu crescer. Da infância, resta-lhe a saudade inigualável dos avós, do seu afecto e das brincadeiras de rua. O marco histórico - Independência do país - foi uma das passagens que muito marcou a vida de Aires Ali. Concluiu os estudos na área da educação. Trabalhou no sector bancário no Banco de Moçambique, atividade esta que não tardou a largar, pois fora convidado a lecionar numa escola em Namaacha, chegando também à direcção da mesma. Por conseguinte, ocupou várias funções no Ministério da Educação e Cultura. E assim iniciou uma carreira política. Passando pela governação da província de Niassa, sua terra mãe, e por Inhambane, que também lhe é muito familiar, vindo a ser tratado nesta última por «Muane», cujo significado é «Genro». Foi o primeiro-ministro de Moçambique, de 2010 a 2012, e com esse cargo viveu «uma das maiores experiências em matéria de governação e de vivência política!». Ali esteve entre os candidatos à sucessão de Armando Guebuza, mas foi a mais recente nomeação do Presidente da República, Filipe Nyusi, que o conduziu ao cargo de embaixador da China. A visão sobre o país é uma: o futuro está na agricultura e no turismo, mas de mãos dadas com a educação.

Do que se recorda da sua infância em Niassa, sua terra mãe, e do que sente saudades?

Gosto imenso das recordações da minha infância. Cresci no seio de uma família numerosa, muito unida, solidária e de prestígio. Os meus avôs quer maternos quer paternos eram líderes destacados nas suas comunidades. No Niassa, outrora e ainda hoje, as populações vivem em grandes aglomerados populacionais ? as povoações ou aldeias ?, se assim quisermos chamar, onde quase todos, ou todos têm uma relação de parentesco. Cresci num ambiente de muito calor e afecto familiar, em particular, dos meus avós que me concediam um ?espaço afectivo? muito especial e acabei por beber muito da sabedoria, afecto e cultura até aos seus últimos dias de vida. As brincadeiras de infância ? fisgadas aos pássaros, a correr atrás da bola feita de trapos, fabrico de carrinhos de madeira e outros brinquedos, pesca, etc. ? com os meus ?irmãos?, que na verdade eram também primos, pois nas nossas línguas maternas não existe o termo primo, eram uma constante. Igualmente, o convívio com os meus tios e avós ? as conversas à volta da fogueira, as refeições colectivas depois de uma boa caçada, etc. ? são momentos que, até hoje, me deixam muita saudade.

«Um dos valores defendidos pela Frelimo é a Unidade Nacional e amor à Pátria»

Professor de profissão, como se dirige para a política?

Eu pertenço à geração de moçambicanos que teve o privilégio de viver um momento histórico exaltante. A antecâmara da proclamação da nossa Independência Nacional. Em 1974 concluí o ensino secundário e no mesmo ano formou-se o Governo de Transição, com a missão de preparar a proclamação da Independência em Junho de 1975. Ainda nos primeiros passos da minha vida profissional como funcionário bancário no Banco de Moçambique ? em processo de transição do BNU (Banco Nacional Ultramarino) para BM (Banco de Moçambique), na divisão de operações com o exterior ? fui ?mobilizado?, como muitos outros jovens na altura, para abraçar uma outra frente considerada prioritária: a Educação! Então, abandonei o escritório do Banco, na Avenida 25 de Setembro na Cidade de Maputo, para ir dar aulas e instalar uma nova escola no distrito da Namaacha. A escola secundária da Frelimo na Namaacha, que tinha por objetivo receber e enquadrar os alunos provenientes de escolas que durante a luta de libertação nacional funcionavam nas zonas já libertas da administração colonial - as zonas libertadas da Frelimo.

Aqui mudou o percurso da minha vida. Na educação, de professor passei para Diretor de Escola, Diretor Provincial, Nacional e outras funções a nível do Ministério da Educação e Cultura até que, em 1994, no âmbito da preparação das primeiras eleições multipartidárias, o meu Partido, a Frelimo, indica-me para concorrer a deputado à Assembleia da República pelo círculo eleitoral do Niassa. Em resumo, esta foi a minha iniciação e entrada para o mundo formal da política.

Foi governador da província de Niassa, entre 1994 e 1999, e também foi na província de Inhambane, entre 2000 e 2004. Em qual se sentiu mais ?em casa? e o que retira dessa prática?

Um dos valores fundamentais defendidos e promovidos pela Frelimo é a Unidade Nacional e amor à Pátria.  A nossa geração, em particular, foi educada dentro destes princípios. Pelo que receber e realizar uma tarefa em qualquer canto do país é, em primeiro lugar, um grande privilégio e deve ser assumido como missão a ser levada a cabo com entrega, abnegação e entusiasmo e ? porque não?! ? alegria. Pelo que me senti à vontade e realizado em qualquer uma delas.

Mas devo referir que antes trabalhei com o mesmo à vontade e alegria nas Províncias de Maputo e Nampula como Diretor Provincial de Educação e Cultura por nove anos (dois em Maputo e sete em Nampula). Respondendo diretamente à sua pergunta: por incrível que pareça senti-me verdadeiramente em casa nas duas Províncias. Em primeiro lugar, pela empatia que nasceu e se desenvolveu com as populações nas duas Províncias. Em segundo lugar, quis o destino que coincidisse com o facto de Niassa ser minha terra de nascença e Inhambane a minha «sograria», terra de origem do pai da minha esposa, meu sogro. Para a nossa realidade cultural isso significa muito! Por isso, em Inhambane sou tratado carinhosamente por «Muane», que significa «Genro»! Nem imaginam os privilégios desse estatuto! Ambas as experiências foram maravilhosas e diferentes, considerando as especificidades de cada Província. Aprendi imenso em como interagir com as populações desfavorecidas e carentes, mas determinadas a lutar contra a pobreza e as vicissitudes da vida. Encontrei na altura as duas Províncias na cauda dos indicadores do nível de desenvolvimento humano, isto é, eram as Províncias que apresentavam maiores índices de pobreza.

«Não tenho grandes dúvidas de que o futuro do nosso país passa pela agricultura e pelo turismo»

Também passou pela pasta da Educação, onde se manteve durante cinco anos. Que desafios enfrentou neste sector e como vê, atualmente, a Educação em Moçambique?

Foi também um momento muito especial da minha vida e experiência profissional. Pela primeira vez fiquei à frente de um ?mega Ministério?, como era tratado na altura, pois congregava o ?tradicional? Ministério da Educação (ensino básico, secundário e médio), a Educação técnica profissional, a formação de professores, o ensino superior e o vasto e complexo sector da Cultura.

Marcou-me profundamente a expansão rápida do ensino, de todos os níveis, ao longo de todo o país; a edificação massiva de infraestruturas escolares, nunca antes experimentada, em todos os cantos do país; a elaboração da estratégia de desenvolvimento da educação técnica profissional e o respetivo quadro legal; a elaboração da lei do ensino superior e a reintrodução de festivais nacionais culturais e gimnodesportivos e o desencadeamento de um amplo movimento de valorização do património histórico-cultural, locais históricos com edificação de monumentos em homenagem aos heróis nacionais, etc. Atualmente, vive-se aquilo a que eu consideraria ?crise de crescimento? rápido do Sistema Nacional de Educação onde a questão de qualidade é de facto o grande desafio! Precisamos de nos concentrar todos na melhoria da qualidade do nosso ensino, enquanto consolidamos os avanços registados na expansão.

Foi o primeiro-ministro de Moçambique, de 2010 a 2012. O que fica dessa passagem e como aceitou a exoneração do cargo (sendo que este afastamento foi recebido, por muitos moçambicanos, com enorme surpresa)?

Uma das maiores experiências na minha vida em matéria de governação e de vivência política! Uma grande escola! Quanto à exoneração?! ? O meu princípio foi sempre estar preparado, e claro que quem é nomeado para uma função um dia terá que cessar. Aceitei o desafio com enorme sentido de responsabilidade e dei o meu melhor para o cumprimento do programa do Governo aprovado pela Assembleia da República e, como tal, aceitei com normalidade a cessação da função, com a tranquilidade e a consciência de saber que há um início e um fim para tudo, em todos os cargos que abraçamos.

O Presidente da República, Filipe Nyusi, nomeou-o, recentemente, para o cargo de embaixador na China. Como recebeu esta nomeação e o que espera deste desafio?

A República Popular da China é um parceiro estratégico de Moçambique, por isso recebi com enorme sentido de responsabilidade esta decisão de sua Excelência, Presidente Nyusi. Antevejo, como nos outros cargos que desempenhei, enormes desafios. Espero dar o meu melhor contributo no reforço e melhoramento das relações de cooperação e amizade entre os dois povos e Estados.

A China é um importante parceiro para Moçambique, porquê? Em que domínios haverá mais cooperação entre Moçambique e China?

Sem dúvidas. Devemos tirar partido daquilo que os dois países têm de melhor para oferecer; a capacitação dos recursos humanos e transferência de tecnologia a par do desenvolvimento da agricultura e apoio à industrialização de Moçambique serão as grandes prioridades no quadro das linhas gerais de cooperação já traçadas pelos líderes dos dois países. 

«Há um início e um fim para tudo, em todos os cargos que abraçamos»

Foi um dos candidatos, pela Frelimo, à sucessão de Armando Guebuza. Entre os cinco aspirantes à Presidência da República, não foi eleito. O que faltou?

Não faltou nada, não reuni os votos necessários?(risos). Ganhei eu, ganhámos todos e sobretudo ganhou o Partido naquele exercício democrático interno do nosso Partido.

Moçambique tem a possibilidade de vir a ser uma das maiores economias africanas?

Sem dúvidas? não obstante as recentes descobertas de consideráveis reservas de recursos minerais, Moçambique, como é sabido, tem excelentes condições agro-ecológicas e extensas áreas para agricultura e uma enorme e riquíssima costa. Apostando no desenvolvimento do capital humano, na agricultura, no turismo, na promoção do desenvolvimento industrial e no melhoramento das infraestruturas apostando na exploração racional dos recursos minerais temos todos os ingredientes necessários para fortificar a nossa economia e transformarmo-nos numa das economias mais prósperas da região.

Que papel tem Moçambique no prisma internacional?

Continuar a ser um país estratégico na cooperação com todos os quadrantes mundiais e deverá manter o papel que já vem desempenhando nas organizações regionais e internacionais (como SADC, PALOP´s, etc.)

Quais acha serem as principais prioridades, fatores chave, para o país?

Não tenho grandes dúvidas de que o futuro do nosso país passa pela agricultura e pelo turismo, isto no que diz respeito ao desenvolvimento económico. É claro que a educação deve andar sempre ligada a qualquer e toda atividade ou processo a ter lugar no nosso país. Um país com fraco nível de formação pouco ou nada pode fazer?.

 

PARTILHAR O ARTIGO \\