José Craveirinha

O poeta de Moçambique

\\ Texto João Afonso Ribeiro
\\ Fotografia Direitos Reservados

Nasceu a 28 de Maio de 1922 e essa foi, provavelmente, a maior ironia na vida de José Craveirinha. O poeta viria a ser um feroz opositor ao regime de António de Oliveira Salazar, mas celebraria os primeiros quatro anos de idade no exato dia em que Portugal acordava com as notícias que davam conta de um Golpe Militar, pondo termo à República e instaurado a Ditadura Militar, que conduziria posteriormente ao Estado Novo.

Activista político e um versejador de excelência, Craveirinha é um nome incontornável na literatura moçambicana. A família paterna de José Craveirinha partira de Aljezur, no Algarve português, rumo a Moçambique. Corria o ano de 1908 e Portugal vivia os últimos anos de um secular regime monárquico. A vida num país empobrecido e periférico no panorama europeu levou a família do pai de Craveirinha a tentar a sorte num dos territórios ultramarinos portugueses e o destino escolhido foi Moçambique. A mãe de Craveirinha, moçambicana, pertencia à etnia Ronga. José Craveirinha nasceu no bairro de Mafala, na então Lourenço Marques, mas viu-se só no mundo muito jovem, após ter perdido a mãe aos seis anos de idade e o pai aos doze. Consta que foi do pai que herdou o gosto pela poesia e pelas letras, de tal forma que, com apenas oito anos de idade, José Craveirinha já recitava Camões. No entanto, com essa idade, o jovem José estava longe de imaginar que seria o primeiro africano a receber o prémio baptizado com o nome do autor d?Os Lusíadas, em 1991, naquela que se afigura como a mais importante distinção do universo da literatura em Língua Portuguesa.

Activista político e um versejador de excelência, Craveirinha é um nome incontornável na literatura moçambicana.    

Craveirinha é sinónimo de uma poesia que assume, sem rodeios, a sua clara oposição ao colonialismo em que viveu e contra o qual lutou durante cerca de metade da sua vida. Não obstante a participação activa na luta pela independência de Moçambique, Craveirinha assumiria que um dos seus defeitos residia no facto de «gostar dos portugueses». A obra que José Craveirinha deixou representa um legado inigualável para a história literária, social e política de Moçambique e tem o condão de mesclar com mestria as culturas europeias e africanas. Não obstante a obra assinada por Craveirinha refletir influência surrealista, não pode ser dissociada do carácter popular e tipicamente moçambicano e de um forte âmago social que alerta para a fragilidade de uma extensa faixa da população moçambicana. Intimamente crítico de alguma da poesia feita com o selo «made in Moçambique», Craveirinha disse, numa entrevista à rádio portuguesa TSF, em 2001, que não se identificava com os poetas da nova geração e que «há poetas a mais em Moçambique, mas poesia há muito pouca». Exigente por natureza, Craveirinha é e será o poeta de Moçambique. 

Uma vida contada em verso

A poesia de Craveirinha demoraria a tornar-se pública. A Lisboa, apenas em 1968 chega a obra Xigubo, por via da Casa dos Estudantes do Império. Autor de uma obra imensa, o poeta estava preso quando foi publicada, em Itália, uma edição bilingue do livro Cantico a un Dio de Catrame. Em 1974, com a independência à porta, Craveirinha publica, na então cidade de Lourenço Marques, o livro Karingana Ua Karingana - expressão ronga para «Era uma vez» - e no qual surgem dois dos seus mais célebres poemas: Ao Meu Belo Pai Ex-Emigrante e Grito Negro. O poeta foi um activo militante no seio da Frelimo, onde se tornou próximo de Samora Machel e se envolveu de corpo e alma na luta pela independência de Moçambique. Preso pela PIDE, é no cárcere que conhece o pintor Malangatana e o também poeta Rui Nogar, seu conterrâneo. Esses tempos ficaram imortalizados no livro Cela 1, cujos versos se debruçam sobre os tempos em que o poeta se viu privado da liberdade. Publicou também a obra Maria, conhecida como uma das mais peculiares obras de Craveirinha, já que foi escrita ao longo de mais de duas décadas. Babalaze das Hienas (1997) e Hamina e Outros Contos (1997) são outras das mais icónicas obras do poeta.

José Craveirinha deixou um vastíssimo legado global. A sua obra pode ser lida em português, francês, inglês, italiano, alemão ou russo, o que prova que a sua consagração enquanto autor foi imensa e galgou fronteiras. Em 1960, pese embora ainda não tivesse algum livro publicado, o autor recebeu o prémio Alexandre Dáskalos. Nos anos que se seguiram, arrecadou os prémios Cidade de Lourenço Marques e Reinaldo Ferreira, Prémio de Ensaio Cidade da Beira ou até o Prémio Nacional de Poesia, em Itália. Mas seria em 1991 que receberia um dos mais prestigiantes prémios de carreira, ao ser condecorado com o Prémio Camões, atribuído por um júri presidido por David Mourão-Ferreira.

A obra que José Craveirinha deixou representa um legado inigualável para a história literária, social e política de Moçambique.    

Na vida pública, destacam-se as posições como vice-administrador da Imprensa Nacional e ainda como vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa. Em jeito de homenagem, Joaquim Chissano declarou o ano de 2002 como «o ano do poeta José Craveirinha». Então com 79 anos, o poeta viria o país pelo qual lutou reconhecer os seus méritos políticos e literários. Faleceria um ano depois, em 2003, com 80 anos.

Craveirinha é sinónimo de uma poesia que assume, sem rodeios, a sua clara oposição ao colonialismo em que viveu e contra o qual lutou durante cerca de metade da sua vida. Não obstante a participação activa na luta pela independência de Moçambique, Craveirinha assumiria que um dos seus defeitos residia no facto de «gostar dos portugueses». A obra que José Craveirinha deixou representa um legado inigualável para a história literária, social e política de Moçambique e tem o condão de mesclar com mestria as culturas europeias e africanas. Não obstante a obra assinada por Craveirinha refletir influência surrealista, não pode ser dissociada do carácter popular e tipicamente moçambicano e de um forte âmago social que alerta para a fragilidade de uma extensa faixa da população moçambicana. Intimamente crítico de alguma da poesia feita com o selo «made in Moçambique», Craveirinha disse, numa entrevista à rádio portuguesa TSF, em 2001, que não se identificava com os poetas da nova geração e que «há poetas a mais em Moçambique, mas poesia há muito pouca». Exigente por natureza, Craveirinha é e será o poeta de Moçambique.

Grito negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

 

José Craveirinha

em Karingana Ua Karingana [Era uma vez] (1974)

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