Silva Dunduro

«Cultura e turismo são parte da engrenagem económica do nosso país»

\\ Texto João Afonso Ribeiro
\\ Fotografia Nuno Noronha

Turismo e cultura andam de mãos dadas em Moçambique e é Silva Dunduro quem delineia as linhas orientadoras de duas pastas estratégicas para o desenvolvimento sustentado do país. O atual Ministro da Cultura e Turismo coordena duas pastas que juntas contribuem para a afirmação de moçambique no plano internacional, e que amplamente contribuem para o desenvolvimento do país no âmbito económico e social. Em grande entrevista, Silva Dunduro aborda o papel da cultura, a planificação de um turismo sustentável, capaz de promover os encantos de Moçambique num plano global, a importância do turismo interno, como forma de mostrar Moçambique aos moçambicanos e combater a sazonalidade do sector, sem deixar de abordar questões relativas às estratégias de marketing e à valorização da cultura no plano interno, fundamental para que se criem elementos diferenciadores na hora de comunicar a oferta turística moçambicana no exterior.

Numa primeira fase, cultura e turismo parecem ser duas pastas muito distantes. Como são geridos dois sectores tão distintos, mas de grande importância para a afirmação do país?

Moçambique é dotado de um rico património cultural, natural e turístico que constitui um activo fundamental para o fortalecimento da moçambicanidade, de criação da riqueza e do bem-estar social. É assim que as duas áreas devem ser vistas e adoptadas como estratégicas para a consolidação da unidade nacional. Adoptamos acções práticas e mensuráveis, que vão desde a promoção de diversidade cultural, a valorização dos heróis nacionais e de locais históricos, turísticos, o estímulo à criatividade artística e à contribuição da cultura para o desenvolvimento socioeconómico. Ou seja, a cultura e o turismo são parte da engrenagem económica do nosso país, assim como o são no mundo inteiro. Hoje, a economia criativa ocupa o terceiro lugar no conjunto das economias mais dinâmicas do mundo contemporâneo. Portanto, cultura e turismo constituem duas faces da mesma moeda e complementam-se.

 

Qual das pastas congrega maior investimento?

Se falarmos de investimentos como algo tangível, como por exemplo a entrada em funcionamento, no ano de 2015, de 23 novos estabelecimentos hoteleiros, pode-se afirmar que o turismo congrega maior investimento. Entretanto, milhares de jovens têm encontrado na cultura o auto-emprego em várias manifestações culturais. Este potencial muitas vezes passa despercebido diante da magnanimidade de um hotel, mas são igualmente importantes para congregar investimentos. Nesta perspetiva intangível, torna-se difícil responder qual dos sectores congrega maior valor. Os dois sectores contribuem substancialmente para o desenvolvimento económico do país. É preciso ter em perspetiva o ambiente cultural, no qual a oferta artística e as infraestruturas constituem um critério importante na atracção que o país pode exercer nas decisões de localização de investimentos estrangeiros. Diria que os dois sectores são fundamentais para o desenvolvimento económico, social e cultural de Moçambique.

 

Não estará porventura a cultura a ser subestimada no plano estratégico de desenvolvimento do país? Existe consciência para o impacto que a cultura pode assumir no desenvolvimento da sociedade civil?

Há um conjunto de acções cultura-turismo para que os recursos naturais sejam combinados com o rico património tangível e intangível, para tornar o nosso país único no contexto universal. Sendo a cultura um fator de coesão social, dada a participação dos cidadãos numa mesma dinâmica cultural, esta contribui no sentido de desenvolver o sentimento de pertença a um mesmo povo, tornando-a, assim, fator importante de integração, de orgulho, de unidade nacional. Por estas razões a cultura assume um papel importante no desenvolvimento da sociedade, através da integração de estratos sociais desfavorecidos, assumindo-se que a sua integração económica através da aprendizagem e da prática de uma atividade artística mostra-se um meio eficaz de luta para a redução das desigualdades sociais.

 

Os moçambicanos valorizam aquilo que é culturalmente produzido no país?

Depende de que ponto vista pretendemos discutir o assunto. Todavia, se existe a cultura moçambicana é óbvio que isso acontece porque é valorizada. Toquemos apenas em alguns exemplos: a capulana foi e continua sendo apropriada por moçambicanos como parte integrante da sua cultura e é símbolo identitário de todas as classes sociais. A matapa é um tipo de gastronomia que se espalhou do Rovuma ao Maputo, cada canto do nosso país se identifica com este prato típico. O rosto da mulher do norte identifica-se com Mussiro e as cores quentes que envolvem o seu corpo. Nós, como Governo, estamos a observar com satisfação que a par da mundialização se fortificam as particularidades e sentimento de pertença dos moçambicanos e, gradualmente, temos reduzido as nossas diferenças ao maximizarmos o que mais nos aproxima: a cultura.    

«Temos reduzido as nossas diferenças ao maximizarmos o que mais nos aproxima: a cultura»    

A cultura moçambicana, na sua riqueza e heterogeneidade, tem capacidade de ser um advento importante para o turismo?

A cultura passa a ser uma das ferramentas fundamentais para a atividade do turismo e para a preservação e divulgação dos seus valores. Nesta perspetiva, o turismo contribuirá para o desenvolvimento sociocultural das populações das localidades de chegada. A cultura e o turismo constituem em conjunto uma oportunidade óptima para catapultar o desenvolvimento do nosso país.

 

Qual é neste momento a importância do turismo no PIB moçambicano? Existem perspetivas para um crescimento exponencial do sector?

O turismo representa 5,6% do PIB. Mas discutir a importância do turismo em termos do PIB, neste momento, talvez não seja a abordagem mais sensata, dado que isso nos remeteria ao processo de recolha e processamento dos dados que entram no cálculo do PIB. Quero com isto explicar que, com a atual capacidade de recolha e processamento de dados estatísticos do turismo, a contribuição do sector é a que acabamos de apresentar, mas estamos conscientes de que essa contribuição é muito superior, porque há informação que ainda não conseguimos captar. Cientes deste facto, iniciámos conjuntamente com o INE um projeto-piloto de uma conta satélite do turismo que nos forneceu dados muito interessantes sobre o impacto do turismo. Agora, o desafio é de consolidar e melhorar este processo para que o sector do turismo seja avaliado de acordo com a sua real contribuição.

 

Existe uma estratégia de comunicação e marketing, pensada de forma a atrair turistas e investidores externos?

Temos a estratégia de marketing para promoção do potencial e oferta turística. Esta tem sido o nosso instrumento de base para as nossas atividades nesta área. Contudo, precisamos de melhorar o atual plano estratégico de marketing em função das últimas constatações e recomendações que derivam do processo de revisão do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Turismo. 

Dado o investimento feito no sector do turismo, Moçambique tem infraestruturas de qualidade prontas para receber um aumento do número de turistas?

Dada a capacidade que Moçambique possui em termos de alojamento turístico, salas para conferência e eventos diversos, equipamento aeroportuário, restauração, podemos dizer com segurança que o país oferece condições para responder a um crescimento substancial de turistas, até porque as capacidades actuais ainda estão subaproveitadas.

 

Existe uma estratégia de promoção que pretende levar os moçambicanos a descobrir os encantos do seu próprio país?

Estamos a desenhar pacotes de marketing para o público interno. É nossa intenção que os moçambicanos descubram Moçambique e usufruam das suas riquezas. Estamos a falar da promoção que eleve o turismo doméstico aos mais altos patamares porque constitui um dos fatores importantíssimos para a redução da sazonalidade da taxa de ocupação. A promoção do turismo doméstico é um processo que começou há alguns anos com várias acções. Até ao momento, a maioria dos moçambicanos que viajam pratica o turismo de negócio. O que pretendemos é que também o façam para lazer junto de suas famílias, amigos, como acontece com turistas estrangeiros.

 

Verifica-se um forte investimento estrangeiro, nomeadamente na construção de estâncias turísticas. De que forma estão salvaguardados os interesses nacionais?

Existem em Moçambique dispositivos legais que estabelecem condições para contratação de mão-de-obra estrangeira no país, que salvaguardam e dão prioridade à criação de emprego para moçambicanos. Há situações em que os estrangeiros investem em parceira com os moçambicanos mas continua a haver um maior número de trabalhadores moçambicanos em relação aos estrangeiros e isso permite contribuir para o alívio da pobreza a milhares de moçambicanos.

 

Mais do que ver o sector a crescer, o Governo tem tomado medidas no sentido de promover um turismo que contribua positivamente para o desenvolvimento do país?

Sim, através de estabelecimento de um quadro institucional, de mecanismos de planificação e controlo e participação activa na criação de um ambiente favorável para o desenvolvimento do turismo. E igualmente através da promoção de parcerias entre os sectores público e privado, do desenvolvimento de acções de formação e profissionalização, e da preservação dos valores culturais.

«É nossa intenção que os moçambicanos ?descubram Moçambique? e usufruam das suas riquezas»    

O turismo business tem atraído muita gente a Moçambique, nomeadamente a Maputo. Que estratégias estão a ser delineadas para a promoção de um turismo de lazer e lúdico?

A estratégia de marketing aprovada pelo Conselho de Ministros focaliza também o turismo de lazer e as estatísticas mostram a importância deste segmento. Há esforços no sentido de aumentar o número de turistas de lazer através da diversificação e desenvolvimento do produto.

 

O Parque da Gorongosa e as reservas naturais são alguns dos pontos de maior interesse turístico. Estes espaços podem funcionar como elementos diferenciados da oferta turística moçambicana?

As áreas de conservação vão enriquecer o produto turístico a oferecer aos visitantes. Provavelmente, não serão um elemento diferenciador, mas de enriquecimento do produto, já que na região outros países possuem áreas de conservação, se calhar com melhor organização que a nossa.

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Moçambique tem condições para se tornar um destino de referência à escala global?

Tem potencial. E neste momento está a trabalhar-se na criação dessas condições. No entanto, a criação dessas condições vai sempre necessitar de uma consciência colectiva, de todos nós, sobre as nossas riquezas e da importância de preservá-las.    

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