40 Anos de Independência de Moçambique

Samora Machel - Uma voz que ecoa na eternidade

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira

«A luta continua! Contra o quê? Contra o tribalismo, a ignorância, a exploração do Homem pelo Homem, a superstição, a miséria, a fome, o pé descalço! A luta continua para que sejamos todos Homens iguais!» Ainda são estas as palavras que ecoam no coração do povo moçambicano, que nos relembram a voz de um líder que jamais será esquecido. Mas Samora Machel foi muito mais que um líder. Foi uma inspiração, um exemplo de força evolucionária que conquistou a confiança de um povo que vivia oprimido há demasiado tempo. Samora Machel foi um nacionalista sem medo. Sem medo de dizer o que era certo, sem medo de lutar por aquilo em que acreditava. E Samora, que também era Moisés, acreditou na possibilidade da libertação da alçada colonial portuguesa e conduziu o seu povo para uma pátria só deles. Proclamando a independência a 25 de Junho de 1975, Samora Moisés Machel tornou-se no primeiro Presidente da República de Moçambique e num dos rostos mais reconhecidos na conquista por uma nação livre.

Líder revolucionário de inspiração socialista e auxiliar de enfermagem nas horas vagas, Samora Machel, natural de Chilembene, na província de Gaza, foi activista ao serviço da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) desde a sua formação, em 1962. De menino atencioso que ajudava os pais nos trabalhos agrícolas e na criação de gado a homem convicto que recebia treino militar na Argélia, Samora Machel tornou-se um perito na organização da guerrilha. Nomeado secretário da defesa da FRELIMO em 1966 e comandante-chefe em 1968, o moçambicano que carregava um nome em forma de elogio às terras portuguesas de Samora Correia, no vale do Tejo, depressa se tornou num dos maiores opositores ao regime colonial proveniente das terras que inspiraram o seu nome. Conseguindo neutralizar a ofensiva militar portuguesa e organizar as zonas libertadas pela FRELIMO, o presidente revolucionário acarinhado por Moçambique e popular além-fronteiras era um orador nato: «É correto comparar a revolução com uma fogueira. Ela começa hesitante, timidamente. Tem de vencer dificuldades para firmar-se, alastrar, crescer. Mas uma vez implantada no seu elemento as chamas correm, espalham-se, avançam e nada é capaz de as fazer parar», dizia Samora Machel, com cada discurso inundado em ovações. E a ele nada o fez parar. Nem a oposição da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) que conduziu o país para uma guerra civil, após a independência.

Seguindo os ideais marxistas-leninistas e conquistando o apoio da antiga União Soviética durante o período que ocupou o cargo de Presidente da República, Samora Machel não se cansou de condenar o colonialismo. «O colonialismo é um crime contra a humanidade. Não há colonialismo humano, não há colonialismo democrático, não há colonialismo não-explorador», afirmava. Mas a voz de Machel não se ouviu para sempre. Na memória de todos os moçambicanos guarda-se com tristeza o trágico 19 de Outubro de 1986, dia em que a queda do avião que transportava Samora Machel calou a sua voz, na região sul-africana de Mbuzini. Mas há vozes que ecoam na eternidade. E a de Samora Machel, por muitas gerações que Moçambique veja crescer, nunca será esquecida.

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