Tufo da Mafalala

A dança das sereias moçambicanas

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Daniel Camacho

O Tufo é uma dança proveniente de Nampula, que todos dizem ter as raízes em Agoche, passando só mais tarde a fazer parte da tradição da Ilha de Moçambique.
Depois de uma visita ao bairro da Mafalala, onde ficámos a saber que o local é uma fonte de história e de convivência entre vários credos e culturas, foi-nos apresentado o grupo de dança Tufo da Mafalala. As 18 senhoras, vestidas, pintadas e adornadas a rigor, guardam nas suas músicas, e nos movimentos que executam, um enorme poder de atracção. Ouvi-las e vê-las é o equivalente a beber um refresco num dia quente de Verão. A única coisa de que nunca ninguém gosta é que a exibição chegue ao fim tão rápido.
 
Os homens acendem uma fogueira. Têm de o fazer para aquecer as peles dos batuques, para esticá-las. Só assim o som sai perfeito. Se um grupo de tufo se prepara para cantar, dançar e enfeitiçar, é bom que o som esteja em conformidade. As mulheres esperam. Sentadas pacientemente numa esteira sobre o chão, aguardam o sinal. As suas faces, cobertas com mussiro, têm gravado a branco o mapa de África. Não há uma que não seja bela. Os olhares espelham um espírito alado. As vestes, onde não poderia faltar a capulana, são chamativas, em tons quentes, brilhantes e sedutores. Ou serão elas. Tinham-nos dito que o grupo de Tufo da Mafalala era perigoso. Nele se dizia estarem as muthiana orera, ou seja, as mulheres mais bonitas. O seu poder de sedução é tido como infalível. A eles não há o que lhes escape. A elas todos os homens se vergam.
Zaquia é a reina do Tufo. É a ela que todas as outras 18 têm mais respeito. Dança há 49 anos e garante que o Tufo é o seu grande amor. A sua única paixão. Os rapazes que tocam dão o sinal. Todos eles são filhos de Zaquia. Ouvem o Tufo desde a barriga da mãe. O som foi afinado. É hora de dançar. Zaquia é quem dá o mote e os cânticos começam a entoar e com eles balançam os corpos em movimentos desconcertantes. Damos por nós hipnotizados. Pelas cores. Pelas vozes. Pelo ondular natural de cada gesto que fazem. São as jóias que cintilam. Os olhares que brilham. Os sorrisos que não se escondem. Sorrimos também. Tudo é delicioso. Como serpentes, vão-se movendo de um lado para o outro, ora saltando à corda, ora batendo os pés no chão, de um modo único. Indescritível. Perde-se a noção do tempo. Há quantos minutos as vemos dançar? Só desejamos que não parem.

As vestes, onde não poderia faltar a capulana, são chamativas, em tons quentes, brilhantes e sedutores.    

Por norma ensaiam sempre coreografias novas. Compõem-se novas músicas, novas letras. O Tufo é importante e quem o vê deve saber valorizá-lo. Para isso entendem que ele não pode cansar. E para que tal não aconteça é necessário inovar para nunca cair na rotina de se repetir até à exaustão sempre o mesmo repertório. Assim, quem exibe está contente por mostrar algo novo. Quem assiste percebe que tudo o que vê foi feito com amor puro à dança. O Tufo, segundo dados históricos, era uma dança religiosa de louvor. Para a acompanhar usavam-se uns tambores de nome ad-duff, em árabe, que em português se denomina de adufo. A tradição foi crescendo e com o tempo o nome é abreviado para Tufo. Dançada apenas por mulheres, o Tufo enraíza-se nos locais islâmicos, como é o caso da Ilha de Moçambique, Nampula.
As letras retratam, em grande parte dos casos, vivências do dia a dia.
Uma vez que Mafalala é um bairro multicultural, não é de estranhar que haja uma comunidade que mantenha as tradições bem vivas, ainda que longe das suas origens.

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