Calane da Silva

«Deram-me a palavra para construir o sonho»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Jay Garrido

Trabalhou durante mais de 20 anos como jornalista, tendo chefiado as redacções dos principais órgãos de informação nacional (jornalista e chefe de redacção no jornal Notícias, na revista Tempo e diretor de informação da Televisão Moçambicana ? TVM local). Foi também Delegado-Adjunto da Agência Lusa e correspondente em Moçambique do Jornal de Notícias do Porto (JN), Portugal. Hoje é diretor do Centro Cultural Brasil-Moçambique, membro fundador da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), atual presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, órgão da CPLP, do Sindicato Nacional de Jornalistas e da Associação Moçambicana da Língua Portuguesa (AMOLP).
 
Como e quando se apercebeu que se tinha apaixonado pelas letras para toda a vida?
Há uma pequena história que me marcou e me fez aperceber que as letras eram um caminho para toda a minha vida. Quando tinha 14 anos escrevi um poema intitulado «Mãe negra» (que fiz constar depois no meu primeiro livro Dos Meninos da Malanga) revelador e denunciador do ambiente de pobreza e exploração que as mães, as famílias, os trabalhadores viviam no meu bairro suburbano. Quando o acabei de escrever, lembro-me de ter ido ao encontro da minha mãe, que naquele momento descascava amendoins para depois os pilar para confeccionar uma refeição. Li-lhe, entusiasmado, aquele meu primeiro poema. Mal acabei, a minha mãe arrancou-mo da mão e disse-me: «Queres também ser preso como a tua tia Nini (Noémia de Sousa) e esse Craveirinha (José Craveirinha)?».
De repente, apercebi-me que escrever era perigoso, mas também, e por isso mesmo, incentivador. Acho que foi a partir dali que a escrita literária começou a fazer parte do meu universo subjetivo e objetivo de ser e estar na vida. Apaixonei-me definitivamente pela palavra, essa nota musical do criador em nós.
 
É docente de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Pedagógica. Quais os pontos fortes e fracos, que importam referir, no que diz respeito ao sistema de ensino e educação de Moçambique?
O sistema como forma, melhor dito, como conjunto de partes coordenadas tendente a atingir certos objetivos, ou também como conjunto de órgãos e mesmo métodos aplicados para alcançar determinados resultados, posso dizer que, como qualquer sistema, o ensino e educação em Moçambique tem pontos fortes e fracos. O ponto forte é que se conseguiu erguer um novo sistema de ensino mesmo com a partida de milhares de professores portugueses que preferiam ir viver e fazer a sua vida profissional em Portugal e noutros países, depois de 1975. Outro ponto forte foi a massificação do ensino e a construção em quase todos os países de inúmeras escolas primárias e secundárias ? que infelizmente ainda não são suficientes ? e que permitiram diminuir a iliteracia.
É óbvio que o sistema e os pilares estruturais desse sistema também possuem pontos muito fracos. Das escolas construídas, uma boa parte delas não está suficientemente apetrechada: muitas salas de aulas não têm carteiras; igualmente não têm bibliotecas adequadas; grande parte das escolas primárias não têm cantinas escolares para servir essa enorme população discente oriunda de famílias pobres. E nós sabemos que crianças com fome não têm a mesma capacidade de assimilação que outras mais bem alimentadas.
Porém, o ponto, efetivamente, mais fraco no campo do nosso ensino- aprendizagem é a falta de qualidade do que ministramos. Infelizmente, temos muitos professores que deveriam ser mais bem formados ? deveria haver muito mais exigência qualitativa nas nossas Escolas de Formação de Professores e nas nossas Universidades de modo que o ciclo vicioso da pobreza educativa e instrutiva entre professores-alunos começasse a diminuir, a desaparecer.
 

«Apaixonei-me definitivamente pela palavra, essa nota musical do criador em nós»

Foi um dos escritores que venceu o Prémio José Craveirinha, o maior galardão literário do país, que distinguiu a sua carreira na literatura e no ensaio. O que diz este prémio sobre si, enquanto moçambicano?
É evidente que ter recebido este prémio me honra e me incentiva a continuar, pois a minha obra ainda não está terminada.
Enquanto moçambicano congratulo-me pela existência deste prémio e pelo facto de o ter recebido, mas devo dizer que não me nego às honras e prémios instituídos pelo Homem, pela humanidade, mas, cá no fundo de mim mesmo, prefiro engrandecer-me mais aos olhos de Deus!
 
Possui uma vasta bibliografia publicada, entre obras académicas e de investigação linguístico-literária, narrativas de ficção, poesia e de literatura infantil? Toda a sua vida gira em volta das palavras. É de facto essa a sua grande paixão?
Toca-me fundo ao colocar-me esta questão. De facto, a pouco e pouco, fui descobrindo que a minha vida estava e está ligada à palavra nas suas várias vertentes, nas suas várias e multidimensionais aplicações. Quando verifico que a minha escolha profissional inicial foi o jornalismo e depois a escrita literária; que o curso superior que queria tirar era Direito ? também ligado à palavra -, acabando por fazer outro igualmente conectado a essa realidade conceptual-cognitiva, ou seja, uma Licenciatura e um Mestrado na área linguístico-literária; e que o meu próprio Doutoramento que, em princípio, deveria ter sido em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, mas que acabou por ser em Lexicologia (linguística), com um estudo e investigação semântico-estilística cognitiva da palavra dentro de uma hipótese de existência de campos isotópicos literários, leva-me a pensar não apenas numa grande paixão pela palavra, pelo seu estudo e compreensão, mas também numa «missão» nesse sentido e com esse objetivo. Assim, igualmente lhe respondo-finalizando sobre a minha «missão» amorosa pela palavra com estes simples versos de um pequeno poema inserido numa das minhas obras e que intitulei «Dádiva de Palavra»: «Deram-me água e fogo para fazer vida. Deram-me a palavra para construir o sonho».
 

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