D. Dinis Sengulane

«O caminho a seguir é o do diálogo»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Jay Garrido

A Diocese dos Libombos é uma das muitas da Igreja Anglicana, na África Austral. A sua sede, em Maputo, tem hoje como Bispo Emérito D. Dinis Sengulane, um homem que muitos não se cansam de elogiar. A doce, mas forte, personalidade e o trabalho realizado valem-lhe uma reputação em todo o país. Antigo presidente do Conselho Cristão de Moçambique, o clérigo esteve seriamente envolvido nas negociações de paz que puseram fim à guerra de desestabilização de Moçambique. Hoje em dia continua a dirigir campanhas para erradicação da malária e desarmamento em África. Trabalha assim, todos os dias, dando pequenos passos, que no futuro se revelarão gigantes.


Moçambique tem uma longa tradição de convivência, pacífica, entre vários credos. Pode dizer-se que o país é um exemplo para o mundo, principalmente hoje em dia em que o terrorismo se faz sentir, muito por causa de fanatismos religiosos?

Moçambique tem tido uma longa tradição de convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos, havendo até irmãos consanguíneos que pertencem a religiões diferentes, e que enviam mensagens de saudações mútua em ocasiões festivas, como o Natal. Qualquer manifestação de fanatismo religioso em Moçambique só pode ter origem fora das nossas fronteiras e, por isso, devemos encerrar as fileiras de tal maneira a que ninguém use a religião como forma de fanatismo ou terrorismo.

Como exemplo de boa colaboração inter-religiosa entre cristãos e muçulmanos hoje em dia posso alegar o facto de eu ser o presidente do Movimento Fazer Recuar a Malária, tendo como vice-presidente um maometano. Sou também presidente do Programa Inter Religioso Contra a Malária e o vice, nesta iniciativa, é outro líder maometano. Juntamos as nossas forças na luta contra a malária no país e só este ano conseguimos distribuir cerca de 60 milhões de redes mosquiteiras.

É necessário, possível e urgente haver colaboração inter-religiosa. Identificar uma missão comum, sem olhar para as questões doutrinais, como ponto de partida.

«É necessário, possível e urgente haver colaboração inter-religiosa»

Foi o antigo presidente do Conselho Cristão de Moçambique e por isso também esteve diretamente ligado às negociações de paz que puseram fim à guerra no país. Que experiências gostaria de compartilhar connosco sobre a pacificação do país?

Qualquer cristão deve ser pacificador, por ser discípulo de Jesus, o Príncipe da Paz. Como Bispo, seria estranho não me envolver como pacificador. Viver numa época em que o meu próprio país estava em guerra não me deixava outra opção. Trabalhar em prol da paz é meu dever e uma grande alegria. Por isso, em resposta à situação de guerra que se enfrentava, organizámos programas de oração, e de estudo, da Bíblia, versando a questão da paz e levando o assunto às agendas das reuniões das igrejas; Compartilhámos com líderes das igrejas que o caminho para a paz passa, inevitavelmente, pelo diálogo entre moçambicanos. Esta mensagem foi levada aos líderes políticos, uma vez acolhida entre os líderes do Conselho Cristão de Moçambique. Assim criaram-se condições para o diálogo entre políticos e iniciou-se a preparação do povo para a paz. Foi no contexto desta preparação que o conceito de desarmamento, no contexto bíblico, nasceu e que veio a ser designado por Transformação de Armas em Enxada ? TAE ? cujo objetivo é desarmar as mãos e as mentes das pessoas.


Onde são mais visíveis as consequências da TAE?

Mais de 900 mil artefactos de guerra foram entregues, pelos seus próprios donos, e destruídos, desde o início do programa.

A iniciativa teve, e continua a ter, aceitação a nível internacional e por parte das organizações nacionais, que têm dado o seu apoio.

No Museu Britânico, em Londres, existe uma árvore da vida, feita de pedaços de armas. Pesa cinco toneladas. As folhas, ramos, tronco, pássaros, ninhos? tudo foi feito com pedaços de armas. Está naquele prestigiado museu, mas foi feita em Moçambique. A obra da pacificação não pára enquanto as pessoas não estiverem reconciliadas. Devemos fazer como o machambeiro, que lança sempre as sementes à terra, mesmo quando não há ameaça de fome.

O caminho para a paz pode ser longo e sinuoso, e tem sido esse o caso para o nosso belo país. Estaremos verdadeiramente em paz quando nos reconciliarmos, algo para o qual todos somos convidados a contribuir, algo que é vital para o progresso.

Pessoalmente fiquei envolvido, abertamente, quando fui eleito presidente da Comissão de Justiça e Reconciliação, do Conselho Cristão de Moçambique, em 1984, tendo tido, por isso, a oportunidade de ter visitado todas as províncias do país, outros países de África, Ásia, Europa e as Américas, e participado em vários fóruns ligados à temática da paz. A organização de cultos públicos anglicanos, ecuménicos e inter-religiosos tornou visível e audível o nosso compromisso para com a causa da paz. Neste momento, juntamente com outras quatro pessoas constituímos o grupo de Observadores/Mediadores do diálogo político, entre o governo e a RENAMO.

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