Salimo Amad Abdula

«Somos um exemplo para África e para o mundo na democracia e no crescimento económico»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Júlio Dengucho

Salimo Amad Abdula é a prova viva de que nada é por acaso. Embora diga ter entrado por acidente no mundo dos negócios, a verdade é que, o tal «acaso», parece representar uma bênção para o sector empresarial moçambicano. Sendo um dos rostos que melhor representa o país internacionalmente, Salimo Abdula é, no entanto, um homem acessível, de discurso claro e de opiniões bem vincadas. As cadeiras que ocupa atualmente, Presidente da Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP) e chairman da Intelec Holdings, apenas reforçam o seu prestígio e a sua avançada visão empresarial, que o acompanha desde os 19 anos.

 

Quando percebeu que deu o primeiro passo, sério, no mundo empresarial?

Penso que o primeiro passo é inesquecível. Costumo dizer que entrei acidentalmente no mundo empresarial. E esse momento foi quando recebi a notícia, por parte dos meus ex-colegas da Iluminante, empresa onde trabalhei, de que os antigos proprietários abandonaram a empresa e deixaram três procurações, uma das quais para mim. A empresa estava afundada em dívidas, com salários em atraso, praticamente sem pernas para andar, seria intervencionada pelo Estado. Os outros dois procuradores afastaram-se, não aceitaram o desafio. Diria que foi assim que comecei, acidentalmente, pois não tinha real noção da dimensão do problema. Mais à frente houve a aquisição da Fadil E.E. e de toda a força de trabalho. Depois a criação da minha empresa, a Electro Sul, foram outros passos significativos neste mundo empresarial que, desde os 19 anos, resolvi abraçar.

«Afirmo categoricamente que sim, o país é um porto seguro para investimentos»

Qual a sua opinião sobre o caminho que Moçambique tem trilhado economicamente?

Segundo o FMI, Moçambique estará entre as 15 economias mundiais com crescimento real mais elevado, pelo menos até 2018. O FMI prevê, igualmente, que as receitas e despesas públicas continuem a aumentar nos próximos anos, em que se espera ainda uma redução da ajuda externa. Poderia acrescentar que o país tem vindo a crescer há mais de uma década, mesmo sem esta componente dos hidrocarbonetos, uma indicação excelente de estabilidade macroeconómica, o que implica referir que é importante não descurarmos os sectores que têm sido os nossos suportes desde sempre, o caso da agricultura. E que devemos potenciar o mais arduamente possível.

 

A que se deve o crescimento económico de que tanto se fala no país?

Deve-se essencialmente aos recursos naturais que o país tem e à capacidade que temos demonstrado até aqui de os utilizar sustentavelmente. Temos a terra arável que é abundante, recurso fundamental para a agricultura, que é a base da nossa economia, temos igualmente os recursos minerais, temos quase três mil quilómetros de costa, com um mar abundante em recursos pesqueiros, e com riquezas naturais (fauna, flora, etc.), que tem feito crescer o interesse turístico pelo país e atraído muito investimento para este sector. A força de trabalho jovem de que o país dispõe abundantemente é também o nosso alicerce para o desenvolvimento.

Que papel tem hoje Moçambique no plano internacional?

Somos há muito tempo um exemplo para África e para o mundo no que toca à democracia e ao crescimento económico. Não é fácil um país, que viveu 16 anos de guerra civil, apresentar uma projecção de crescimento económico na ordem dos 7,5 a 8%, volvidos pouco mais de 10 anos após o término da guerra e até aos dias de hoje. Na manutenção da paz e estabilidade social e no diálogo para resolução de conflitos, somos também um exemplo. Ademais, no que toca ao plano económico, o país tem-se destacado como uma das economias que mais beneficia de maior investimento estrangeiro, fruto principalmente do sector de indústria extractiva e mineração, e dos megaprojetos de Oil & Gas. Estamos positivamente expostos ao mundo a este respeito. Mas Oil & Gas não pode ser visto como o único futuro deste país; a agricultura, pesca, entre outros sectores, não podem ser esquecidos. É importante potenciar todos estes sectores e as respectivas cadeias de valor que absorvem e criam, na sua maioria, oportunidades para as micro, pequenas e médias empresas, aumentando desta forma o potencial e capacidade para contribuir, ainda mais, para a criação de emprego, renda e de rendimento.

 

Com que olhos vêem os investidores estrangeiros o crescimento deste país?

É inegável o crescimento do investimento no país, assim apontam os números. Por exemplo, o BPI destacou no seu relatório sobre a economia moçambicana que o Investimento Directo Estrangeiro (IDE) praticamente duplicou em 2012, comparativamente a 2011, passando de 2,7 biliões de dólares para 5,2 biliões de dólares, destinados sobretudo aos grandes projetos.

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