Sónia Sultuane

«Sou uma lua com todas as suas fases»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Saint-Louis Studio

«A liberdade, o espírito aventureiro, a Maria-rapaz, os berlindes, os pneus, os rolamentos, as bicicletas, as fisgas, os pássaros, as hortas, as plantas, as flores, as mangas, o trepar às árvores, desafiar as abelhas, os animais, as borboletas», com pequenas palavras Sónia Sultuane mostra-nos o que a leva a ter «saudades» da terra que a viu crescer - Nacala.

De origem muçulmana, Sónia serve-se destes pequenos fragmentos, em jeito de lembrança, para contar o início da sua história. Esta menina, hoje mulher, é prova viva de que o Amor e as palavras são uma dádiva. Esteve ligada ao Núcleo de Arte, local onde partilhava as experiências; fez parte da Associação dos Escritores, como Secretária da Assembleia Geral; gosta de pintar; escrever, já tem quatro obras publicadas; e gosta de levar o seu trabalho ao mundo. Recentemente lutou contra um cancro, e hoje diz: «Não tenho medo da morte, tenho medo é de não poder viver o próximo instante».

 

O que tinha naquele tempo em que vivia em Nacala, que hoje não tem em Maputo? 
As belíssimas praias, as conchinhas, os castelos na areia, as covas onde nos enterravam, os fins-de-semana de descoberta de novos lugares, as aventuras com os meus pais, os seus amigos e os meus irmãos, as histórias, a terra, a natureza, as tardes de sábado onde assistíamos aos filmes mais recentes que chegavam da capital.

 

É membro do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (MUVART), do Núcleo de Arte e foi secretária da Assembleia Geral da Associação dos Escritores de Moçambique.  O que representou cada um destes momentos na sua vida e como olha a Arte na sociedade em que está inserida? 
Durante o tempo em que estive ativamente ligada ao MUVART, fui uma artista livre, dei o melhor de mim como criadora. Tudo era possível, não havia algemas, a única regra era criar, fazer, sentir, viver e amar a arte. O núcleo dos artistas é definitivamente o Núcleo de Arte, o lugar de partilha de aprendizagem de saberes distintos e tão diversificados.

A Associação dos Escritores é, sem dúvida, com os seus altos e baixos, com as suas dificuldades, a Catedral de todos os escritores moçambicanos. Ter sido Secretária da Assembleia Geral da mesma foi uma grande honra. Dei o contributo que me foi solicitado.  

Em relação ao meu olhar sobre a arte na sociedade em que estou inserida, diria que a considero uma forma de dar as boas-vindas, o Welcome to Mozambique, principalmente a quem é de outro país ou de outra cultura. Considero ‘um lugar’ de descoberta do nosso povo, da nossa identidade, da nossa verbalidade, da paleta das nossas cores, da ritualidade dos nossos corpos...

 

Poetisa, escritora e artista plástica. Vive da arte? 
Infelizmente não consigo viver da minha arte plástica, porque também não a vendo... (risos) e também não vivo dos meus livros, quem sabe um dia com um Best-seller... (risos). Não tenho nenhuma formação artística. Sou autodidacta. Também involuntariamente acabo sempre por trazer as palavras para a minha arte plástica. Não me considero pintora, mesmo que tenha apresentado um trabalho de pintura, os Códigos de Gaudi, e ainda por cima pinto com os dedos e não com pincéis (risos), sou uma sonhadora ou criadora irrequieta.
 

Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) homenageou-a este ano. Esperava tal homenagem?
Não, não esperava. Foi um gesto e um momento mágico, com cunho oficial de escritores para outra escritora. Foi um «bem-vinda a casa, e estamos todos aqui para te abraçar». Estarei sempre grata à Associação dos Escritores por me ter recebido na sua Catedral e a todos quantos estiveram presentes.


\\ Fotografia Saint-Louis Studio


\\ Fotografia Saint-Louis Studio

«As palavras são a fonte de onde brota a vida, são o amor na sua totalidade, escrito, falado, sentido ou lido»

Já participou em várias exposições… algum trabalho que a tenha preenchido emocionalmente por completo?   
Tenho um carinho muito especial por uma participação na Itália, em Piacenza. Pedi à organização que partisse uma parede do castelo onde estávamos a fazer a exposição. Pensei que não seria possível claro, tratando-se de um castelo tão antigo, e foi-me dito que sim, que podia partir a parede, pois na arte e na expressão artística não deveria haver limites nem barreiras. No contexto dessa mesma obra, que queria apresentar, quis fotocopiar dinheiro, mas acabou por dar uma grande confusão ao ponto de quase chamarem a polícia porque não era suposto fazer-se cópias de notas. Piacenza é um lugar pequeniníssimo, é uma ‘cidade’ dentro de um castelo, portanto o espanto do meu pedido deu que falar. Felizmente a organização também conseguiu que eu tivesse o dinheiro fotocopiado porque queria alterar o valor das notas por palavras. O respeito com que a arte e os artistas são tratados na Itália marcou-me profundamente.

 

Num dos seus trabalhos fala das músicas do seu coração, dos ídolos do seu coração, das palavras do seu coração. Quem é esta Sónia, com um coração cheio, artístico e misterioso?
Sou uma lua com todas as suas fases. Considero-me uma sonhadora, uma inconformada. Preciso sempre de viver muito e intensamente, fazer várias coisas, olhar o mundo, sentir o mundo, mas principalmente preciso de amar as pequenas coisas da vida. Detesto a monotonia, as rotinas, a falta de amor, da partilha, do cuidado para com o outro, a falta de gratidão. Não suporto gente desleal, falsa, gente que mente e que fere os outros descarada e propositadamente.

 

Todos nós viajamos nas palavras! O que tenta passar com as suas? 
As palavras são a fonte de onde brota a vida, são o amor na sua totalidade escrito, falado, sentido ou lido, é essa mensagem que quero partilhar.

«acho que as palavras têm a força de levar uma nação para a frente»

É autora do projeto Walking Words (palavras que andam). São essas palavras que andam que levam a força de uma nação para a frente? 
Quando comecei esse projeto em 2008, nunca pensei que tivesse o impacto que teve e continua a ter. Decidi nos últimos meses ‘revisitá-lo’ e, se tudo correr bem, torná-lo-ei finalmente um registo literário, será a minha ‘tese’ artística (risos). A minha ideia é levar as palavras aos sítios mais absurdos e improváveis. Defendo que as palavras também são matéria, que as podemos tocar, sentir, daí caminhar com elas para vários sítios e ter inserido esse projeto em tantas outras disciplinas artísticas. Literalmente as pessoas podem tocar, agarrar nelas. Sim, acho que as palavras têm a força de levar uma nação para a frente. Senão vejamos: uma nação muda é uma nação nula, morta, um Ser Humano que não verbaliza ou escreve o que sente, o que pensa…

 

Moçambique ainda tem muitas palavras para dirigir ao mundo, apesar do embaraço que muitas podem causar?
Democracia, Liberdade de expressão, Justiça Social, Igualdade de Género, de Religião, igualdade de oportunidades, inclusão de toda a sociedade em assuntos de interesse nacional, respeito e igualdade das minorias.

 

As palavras são a identidade de um povo. Que palavras deixaria aos futuros artistas moçambicanos?
Amor, partilha, entrega, dignidade, identidade e respeito.

 

Atualmente dedica-se a quê?
Escrevo. Tenho quatro livros publicados, três de poesia – SonhosImaginar o Poetizado e No colo da Lua – e um conto Infantil, A Lua de N’weti. Estou a concluir mais dois livros a serem publicados em Novembro, um de poesia e outro conto infantil, e finalmente o registo escrito do projeto Walking Words. Também trabalho numa firma de Advogados, a SAL&Caldeira Advogados, há quase treze anos, onde ocupo o cargo de Gestora da Imagem da empresa. Estou neste momento inserida em alguns projetos artísticos e de moda.

«Fintei o cancro apoiando-me e acreditando sempre no amor»

A Sónia lutou contra um cancro. Quer-nos falar disso, em quem se apoiou, como o fintou, e agora se mantém com a mesma elegância de antes. Há palavras?
Foi-me diagnosticado em Dezembro de 2015 um cancro no sistema linfático, e achei que a minha vida tinha acabado naquele momento. Não era num sítio específico, mas esse maldito percorria-me o corpo todo, fiquei apavorada, desnorteada, incrédula. Estive de Janeiro a Maio deste ano a fazer quimioterapia e radioterapia. De quando em vez tenho um frio no estômago quando me sinto menos bem, porque os efeitos secundários esses ainda permanecem. Tenho medo? Sim, afinal tenho um cancro maligno, e tenho medo, sim, de regressar à consulta dos três meses para saber se está tudo bem.  Tenho medo deste primeiro ano. Mas vou viver com medo? Claro que não. Apoiei-me incondicionalmente na minha família e nos meus amigos. Apoiei-me na bondade e na amizade que sempre tive de muitos. Realmente é nesses momentos que sabemos quem são aqueles que por nós morreriam, quem são os amigos de sempre, aqueles que não só choram connosco, mas também estão lá para enxugar as lágrimas.

Toda essa experiência fez também com que uma parte de mim que acreditava cegamente na inocência, na bondade, na humanidade dos outros morresse. Renasci com um corpo e uma cabeça de quarenta e cinco anos, mas com a sorte de viver novamente e poder viver diferente já com a experiência de uma mulher madura. É uma bênção.

Reaprendi que o nosso corpo é realmente um templo onde todos os milagres podem acontecer. Superar um cancro é superar a própria existência e perder todas as expectativas e a esperança, mas mesmo assim continuar a pedir a Deus uma segunda chance, uma segunda vida. Passamos a querer fazer diferente, aprendemos que a vida é única e uma só. Aprendemos a suportar a dor e a dizer a nós próprios que qualquer dor é menor que a dor que tivemos ontem e que teremos amanhã para aguentar aquele instante. Aprendemos que há pessoas a sofrer mais do que nós e que temos a sorte de ainda estarmos vivos, e vamo-nos agarrando a essas coisas, aos mantras, às longas meditações, vamos aprendendo a suportar a solidão do nosso pensamento, as perguntas sem respostas e o sofrimento silencioso físico, espiritual e mental. 

Aprendemos que realmente o amor é uma dádiva quando o temos dentro de nós e quando temos a oportunidade de amar e sermos amados verdadeiramente, essa é a grande beleza da vida. Aprendemos a perdoar o imperdoável. Fintei o cancro apoiando-me e acreditando sempre no amor.  E hoje digo: Não tenho medo da morte, tenho medo é de não poder viver o próximo instante. 

«acho que as palavras têm a força de levar uma nação para a frente»

É autora do projeto Walking Words (palavras que andam). São essas palavras que andam que levam a força de uma nação para a frente? 
Quando comecei esse projeto em 2008, nunca pensei que tivesse o impacto que teve e continua a ter. Decidi nos últimos meses ‘revisitá-lo’ e, se tudo correr bem, torná-lo-ei finalmente um registo literário, será a minha ‘tese’ artística (risos). A minha ideia é levar as palavras aos sítios mais absurdos e improváveis. Defendo que as palavras também são matéria, que as podemos tocar, sentir, daí caminhar com elas para vários sítios e ter inserido esse projeto em tantas outras disciplinas artísticas. Literalmente as pessoas podem tocar, agarrar nelas. Sim, acho que as palavras têm a força de levar uma nação para a frente. Senão vejamos: uma nação muda é uma nação nula, morta, um Ser Humano que não verbaliza ou escreve o que sente, o que pensa…

 

Moçambique ainda tem muitas palavras para dirigir ao mundo, apesar do embaraço que muitas podem causar?
Democracia, Liberdade de expressão, Justiça Social, Igualdade de Género, de Religião, igualdade de oportunidades, inclusão de toda a sociedade em assuntos de interesse nacional, respeito e igualdade das minorias.

 

As palavras são a identidade de um povo. Que palavras deixaria aos futuros artistas moçambicanos?
Amor, partilha, entrega, dignidade, identidade e respeito.

 

Atualmente dedica-se a quê?
Escrevo. Tenho quatro livros publicados, três de poesia – SonhosImaginar o Poetizado e No colo da Lua – e um conto Infantil, A Lua de N’weti. Estou a concluir mais dois livros a serem publicados em Novembro, um de poesia e outro conto infantil, e finalmente o registo escrito do projeto Walking Words. Também trabalho numa firma de Advogados, a SAL&Caldeira Advogados, há quase treze anos, onde ocupo o cargo de Gestora da Imagem da empresa. Estou neste momento inserida em alguns projetos artísticos e de moda.

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